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Os poços artesianos vão acabar com a água no subsolo ou nos aquíferos?

poços artesianos


Logo, com esse avanço vêm também preocupações: será que os poços artesianos podem esgotar a água subterrânea?


Para responder isso, é preciso entender a real quantidade de água disponível no planeta, como funciona a dinâmica dos aquíferos e o que dizem as pesquisas hidrogeológicas sobre extração e recarga.


Neste artigo, a Perfurato reúne dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do estudo clássico “Água Subterrânea no Planeta Água”, do Hidrogeólogo renomado brasileiro José do Patrocínio Tomaz Albuquerque, para esclarecer o tema de forma simples e responsável.


🌍 Quanta água existe no planeta?


A Agência Nacional de Águas apresenta um modelo didático para compreendermos a distribuição da água no planeta. Se toda a água da Terra

(1 bilhão e 370 milhões de km³) coubesse em 1 litro, teríamos:


  • Toda a água doce do planeta = 28 mL

    (ou seja, caberia em um copo de cafezinho)

  • Água doce realmente utilizável pelo ser humano = 6,27 mL


  • Dessa água utilizável:

    • 0,1 mL = água superficial (rios, lagos, represas)

    • 6,17 mL = água subterrânea

      ➜ 98% da água doce líquida disponível está no subsolo


Ou seja: a maior parte da água doce líquida do planeta está nos aquíferos, e não na superfície.


distribuição didática de água doce no planeta

A água subterrânea não é um “estoque parado”: ela está em circulação


Segundo o estudo “Água Subterrânea no Planeta Água”, é incorreto pensar que aquíferos são “caixas d’água gigantes” guardando água em repouso. Eles fazem parte de um sistema em constante movimento, ligado diretamente ao ciclo da água.


O artigo explica: “Água subterrânea é um segmento do ciclo hidrológico, intimamente relacionado com as águas fluviais. A exploração de um segmento tem reflexos imediatos na exploração do outro.”


Isso significa que:

  • Ao retirar água demais de um aquífero, o rio próximo perde vazão.

  • Quando o rio está baixo, há menos recarga para o aquífero.

  • O equilíbrio entre águas superficiais e subterrâneas é inseparável.

 

Captações de rios também são captações de água subterrânea


Pouca gente sabe disso, mas o estudo ressalta: “As captações a fio d’água, baseadas em vazões mínimas ou vazões de permanência, são também captações de água subterrânea.”


Isso significa que:

  • A água bombeada diretamente do rio vem do lençol freático quando o rio está baixo.

  • Portanto, a gestão hídrica deve considerar poços + captações superficiais, pois ambas exploram o mesmo recurso.

 

Quanta água subterrânea realmente circula?


Segundo Albuquerque (2007), em escala planetária, a água subterrânea circula da seguinte forma:


  • 14.000 km³/ano = volume médio global em circulação (recarga);

  • 13.000 km³/ano → descarregam naturalmente para os rios;

  • km³/ano → seguem para os oceanos.


Portanto, o papel da água subterrânea é manter rios vivos, garantindo suas vazões mesmo sem chuva, o chamado escoamento de base.

 

Potencial real da água subterrânea é menor do que parece


Embora 98% da água doce líquida esteja no subsolo, o potencial explorável (que realmente pode ser usado) é bem menor:


  • Potencial fluvial anual total = 36.000 km³

  • Água superficial = 23.000 km³

  • Água subterrânea = 13.000 km³ (≈ 36% do total)


Mas desse volume subterrâneo, 40% a 50% precisa ficar no ambiente, para manter rios, nascentes e ecossistemas.


Por isso, o potencial realmente disponível para uso humano é de:

  • 5.600 a 7.000 km³/ano no planeta


Ou seja: é muito, mas não é infinito.

ciclo hidrólogico

Exemplos de aquíferos brasileiros


🔷 Aquífero Guarani:

  • Disponibilidade estimada: 13 a 16 km³/ano.

  • Um dos maiores aquíferos do mundo, com excelente qualidade de água.


🔷 Sistema Aquífero do São Francisco:

  • Toda sua disponibilidade (1.200 m³/s) já está comprometida.

  • A água é usada integralmente para a regularização da represa de Sobradinho.

  • Conclusão: não deveria ter exploração a montante.


🔷 Cristalino do Nordeste:

  • Baixíssimo potencial hídrico

  • Recarga muito difícil devido ao clima

  • Exploração excessiva leva à exaustão de poços

  • Mas não gera impacto ambiental significativo, pois o bioma já é adaptado à escassez

aquíferos brasileiros

Conclusão : poços artesianos vão acabar com a água do subsolo?


Não, desde que sejam usados com responsabilidade. A água subterrânea faz parte de um ciclo natural de recarga contínua. Mas ela pode sim se esgotar localmente quando:


  • há extração acima da recarga;

  • existe concentração de muitos poços em áreas frágeis;

  • faltam estudos e monitoramento;

  • poços clandestinos operam sem controle;

  • captações superficiais e subterrâneas não são geridas juntas.


Com informação técnica, manejo adequado e responsabilidade, poços artesianos não comprometem os aquíferos, pelo contrário, são uma forma inteligente de usar a água que a natureza já coloca em circulação.


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