Os poços artesianos vão acabar com a água no subsolo ou nos aquíferos?
- Equipe Perfurato

- 11 de dez.
- 3 min de leitura

A perfuração de poços artesianos cresce em todo o Brasil, tanto em áreas rurais quanto urbanas. Estima-se que no Brasil há cerca de 2,5 milhões de poços tubulares registrados, sendo que uma parcela significativa pode estar “clandestina” ou fora de cadastros oficiais.
Logo, com esse avanço vêm também preocupações: será que os poços artesianos podem esgotar a água subterrânea?
Para responder isso, é preciso entender a real quantidade de água disponível no planeta, como funciona a dinâmica dos aquíferos e o que dizem as pesquisas hidrogeológicas sobre extração e recarga.
Neste artigo, a Perfurato reúne dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do estudo clássico “Água Subterrânea no Planeta Água”, do Hidrogeólogo renomado brasileiro José do Patrocínio Tomaz Albuquerque, para esclarecer o tema de forma simples e responsável.
🌍 Quanta água existe no planeta?
A Agência Nacional de Águas apresenta um modelo didático para compreendermos a distribuição da água no planeta. Se toda a água da Terra
(1 bilhão e 370 milhões de km³) coubesse em 1 litro, teríamos:
Toda a água doce do planeta = 28 mL
(ou seja, caberia em um copo de cafezinho)
Água doce realmente utilizável pelo ser humano = 6,27 mL
Dessa água utilizável:
0,1 mL = água superficial (rios, lagos, represas)
6,17 mL = água subterrânea
➜ 98% da água doce líquida disponível está no subsolo
Ou seja: a maior parte da água doce líquida do planeta está nos aquíferos, e não na superfície.

A água subterrânea não é um “estoque parado”: ela está em circulação
Segundo o estudo “Água Subterrânea no Planeta Água”, é incorreto pensar que aquíferos são “caixas d’água gigantes” guardando água em repouso. Eles fazem parte de um sistema em constante movimento, ligado diretamente ao ciclo da água.
O artigo explica: “Água subterrânea é um segmento do ciclo hidrológico, intimamente relacionado com as águas fluviais. A exploração de um segmento tem reflexos imediatos na exploração do outro.”
Isso significa que:
Ao retirar água demais de um aquífero, o rio próximo perde vazão.
Quando o rio está baixo, há menos recarga para o aquífero.
O equilíbrio entre águas superficiais e subterrâneas é inseparável.
Captações de rios também são captações de água subterrânea
Pouca gente sabe disso, mas o estudo ressalta: “As captações a fio d’água, baseadas em vazões mínimas ou vazões de permanência, são também captações de água subterrânea.”
Isso significa que:
A água bombeada diretamente do rio vem do lençol freático quando o rio está baixo.
Portanto, a gestão hídrica deve considerar poços + captações superficiais, pois ambas exploram o mesmo recurso.
Quanta água subterrânea realmente circula?
Segundo Albuquerque (2007), em escala planetária, a água subterrânea circula da seguinte forma:
14.000 km³/ano = volume médio global em circulação (recarga);
13.000 km³/ano → descarregam naturalmente para os rios;
km³/ano → seguem para os oceanos.
Portanto, o papel da água subterrânea é manter rios vivos, garantindo suas vazões mesmo sem chuva, o chamado escoamento de base.
Potencial real da água subterrânea é menor do que parece
Embora 98% da água doce líquida esteja no subsolo, o potencial explorável (que realmente pode ser usado) é bem menor:
Potencial fluvial anual total = 36.000 km³
Água superficial = 23.000 km³
Água subterrânea = 13.000 km³ (≈ 36% do total)
Mas desse volume subterrâneo, 40% a 50% precisa ficar no ambiente, para manter rios, nascentes e ecossistemas.
Por isso, o potencial realmente disponível para uso humano é de:
5.600 a 7.000 km³/ano no planeta
Ou seja: é muito, mas não é infinito.

Exemplos de aquíferos brasileiros
🔷 Aquífero Guarani:
Disponibilidade estimada: 13 a 16 km³/ano.
Um dos maiores aquíferos do mundo, com excelente qualidade de água.
🔷 Sistema Aquífero do São Francisco:
Toda sua disponibilidade (1.200 m³/s) já está comprometida.
A água é usada integralmente para a regularização da represa de Sobradinho.
Conclusão: não deveria ter exploração a montante.
🔷 Cristalino do Nordeste:
Baixíssimo potencial hídrico
Recarga muito difícil devido ao clima
Exploração excessiva leva à exaustão de poços
Mas não gera impacto ambiental significativo, pois o bioma já é adaptado à escassez

Conclusão : poços artesianos vão acabar com a água do subsolo?
Não, desde que sejam usados com responsabilidade. A água subterrânea faz parte de um ciclo natural de recarga contínua. Mas ela pode sim se esgotar localmente quando:
existe concentração de muitos poços em áreas frágeis;
faltam estudos e monitoramento;
poços clandestinos operam sem controle;
captações superficiais e subterrâneas não são geridas juntas.
Com informação técnica, manejo adequado e responsabilidade, poços artesianos não comprometem os aquíferos, pelo contrário, são uma forma inteligente de usar a água que a natureza já coloca em circulação.
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