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Perfurato

Qualidade da água

Os poços artesianos vão acabar com a água dos aquíferos?

Por Perfurato · 17 de março de 2026 · 4 min de leitura

A perfuração de poços artesianos cresce em todo o Brasil, tanto em áreas rurais quanto urbanas. Estima-se que no Brasil há cerca de 2,5 milhões de poços tubulares, sendo que uma parcela significativa pode estar "clandestina" ou fora de cadastros oficiais.

Com esse avanço vêm também preocupações: será que os poços artesianos podem esgotar a água subterrânea?

Para responder isso, é preciso entender a real quantidade de água disponível no planeta, como funciona a dinâmica dos aquíferos e o que dizem as pesquisas hidrogeológicas sobre extração e recarga.

Neste artigo, a Perfurato reúne dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do estudo clássico "Água Subterrânea no Planeta Água", do renomado hidrogeólogo brasileiro José do Patrocínio Tomaz Albuquerque, para esclarecer o tema de forma simples e responsável.

Quanta água existe no planeta?

A Agência Nacional de Águas apresenta um modelo didático para compreendermos a distribuição da água no planeta. Se toda a água da Terra (1 bilhão e 370 milhões de km³) coubesse em 1 litro, teríamos:

  • Toda a água doce do planeta = 28 mL (caberia em um copo de cafezinho);
  • Água doce realmente utilizável pelo ser humano = 6,27 mL;
  • Dessa água utilizável, 0,1 mL é água superficial (rios, lagos, represas) e 6,17 mL é água subterrânea.

Ou seja, 98% da água doce líquida disponível está no subsolo, nos aquíferos, e não na superfície.

Distribuição didática da água doce no planeta

A água subterrânea não é um "estoque parado": ela está em circulação

Segundo o estudo "Água Subterrânea no Planeta Água", é incorreto pensar que aquíferos são "caixas d'água gigantes" guardando água em repouso. Eles fazem parte de um sistema em constante movimento, ligado diretamente ao ciclo da água.

O artigo explica: "Água subterrânea é um segmento do ciclo hidrológico, intimamente relacionado com as águas fluviais. A exploração de um segmento tem reflexos imediatos na exploração do outro."

Isso significa que:

  • Ao retirar água demais de um aquífero, o rio próximo perde vazão;
  • Quando o rio está baixo, há menos recarga para o aquífero;
  • O equilíbrio entre águas superficiais e subterrâneas é inseparável.

Captações de rios também são captações de água subterrânea

Pouca gente sabe disso, mas o estudo ressalta: "As captações a fio d'água, baseadas em vazões mínimas ou vazões de permanência, são também captações de água subterrânea."

Ou seja, a água bombeada diretamente do rio vem do lençol freático quando o rio está baixo. Portanto, a gestão hídrica deve considerar poços e captações superficiais juntos, pois ambos exploram o mesmo recurso.

Quanta água subterrânea realmente circula?

Segundo Albuquerque (2007), em escala planetária, cerca de 14.000 km³ de água subterrânea circulam por ano (recarga). Desse total, 13.000 km³/ano descarregam naturalmente para os rios e o restante segue para os oceanos.

Portanto, o papel da água subterrânea é manter os rios vivos, garantindo suas vazões mesmo sem chuva, o chamado escoamento de base.

O potencial real da água subterrânea é menor do que parece

Embora 98% da água doce líquida esteja no subsolo, o potencial explorável (que realmente pode ser usado) é bem menor:

  • Potencial fluvial anual total = 36.000 km³;
  • Água superficial = 23.000 km³;
  • Água subterrânea = 13.000 km³ (cerca de 36% do total).

Mas desse volume subterrâneo, 40% a 50% precisa ficar no ambiente, para manter rios, nascentes e ecossistemas. Por isso, o potencial realmente disponível para uso humano é de 5.600 a 7.000 km³ por ano no planeta. É muito, mas não é infinito.

Ciclo hidrológico

Exemplos de aquíferos brasileiros

Aquífero Guarani

  • Disponibilidade estimada: 13 a 16 km³/ano;
  • Um dos maiores aquíferos do mundo, com excelente qualidade de água.

Sistema Aquífero do São Francisco

  • Toda sua disponibilidade (1.200 m³/s) já está comprometida;
  • A água é usada integralmente para a regularização da represa de Sobradinho;
  • Conclusão: não deveria haver exploração a montante.

Cristalino do Nordeste

  • Baixíssimo potencial hídrico;
  • Recarga muito difícil devido ao clima;
  • A exploração excessiva leva à exaustão de poços, mas não gera impacto ambiental significativo, pois o bioma já é adaptado à escassez.

Aquíferos brasileiros

Conclusão: os poços artesianos vão acabar com a água do subsolo?

Não, desde que sejam usados com responsabilidade. A água subterrânea faz parte de um ciclo natural de recarga contínua. Mas ela pode sim se esgotar localmente quando:

  • há extração acima da recarga;
  • existe concentração de muitos poços em áreas frágeis;
  • faltam estudos e monitoramento;
  • poços clandestinos operam sem controle;
  • captações superficiais e subterrâneas não são geridas juntas.

Com informação técnica, manejo adequado e responsabilidade, poços artesianos não comprometem os aquíferos. Pelo contrário, são uma forma inteligente de usar a água que a natureza já coloca em circulação.

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